quinta-feira, 8 de março de 2012

CINCO ANOS SEM VOCÊ


E aí, Marcelo?
Como vão as coisas?
Hoje faz 5 anos que eu não te vejo.
O tempo voa, né, cara?
O que você conta de bom?
Saudades tuas, sabia?
Você era um dos canais a me ligar aos melhores momentos da
minha juventude, da minha infância, do meu passado. Você sempre me lembrava uma
história da qual eu já havia esquecido. E a gente ria, ria tudo de novo. Ria do
riso que demos naqueles dias.

As coisas, por aqui, pouco mudaram. Cinco anos não é tanto
tempo assim!
Nilópolis continua cheia de gente. E as ruas, cheias de
lixo.
A beija-flor sempre faz bonitos carnavais, mesmo quando não
ganha.
Nosso Flamengo... ainda daquele jeito: meio barro, meio
tijolo... mas a gente continua torcendo.
Moisés continua por aí, com sua hirsuta barba branca,
aproveitando bitucas de cigarros que encontra pelo chão e falando sobre seu pé
de abacate-manteiga, com o qual ainda jura dialogar. Continua maluquinho, do
mesmo jeito!
Lembra quando ele ficava deitado numa laje, quarando ao sol
do meio-dia? Da janela do CNEC nós mexíamos com ele. E ele, com um gesto brusco,
mandava-nos nos ferrar. Nós ríamos tanto disso! Era engraçado, né? Eu só não
imaginava que isso fosse ficar tão fortemente impresso em meu coração. Todas as
vezes em que cruzo com ele, nas ruas, eu me lembro de você. E me dá vontade de
rir tudo de novo.
A gente não escolhe o que vai marcar nosso coração pelo
resto da vida. As coisas, simplesmente, acontecem. E até um lunático pode ser a
nossa ponte para um passado de muita felicidade.

A tua mãe continua o mesmo doce de sempre, mas muito triste
sem você. Essa chaga, que é a tua ausência, nunca se fechou nela. E não vai
fechar. Perder um filho subverte toda a ordem daquilo que consideramos normal e
aceitável.
Eu a vejo na igreja, aos domingos, durinha, parada, de
terninho e saia azuis. Você está em todos os ângulos do olhar dela. Você está
sempre lá.

Tua tia ainda trabalha na mesma farmácia, no centro da
cidade. Ela, às vezes, sai para trabalhar junto comigo. Continua falando pouco
e andando devagar. Quando estou atrasado, finjo que não a vejo, passo direto
por ela, para não me atrasar mais. (risos)

Teu irmão tá legal. Não há mais nada nele que lembre aquele
menino bobo, de boca sempre aberta, que ficava fazendo pipas e rabiolas,
sentado no chão, de pernas abertas, no fundo da varanda. Ele se tornou um homem
bonito (mais bonito que nós dois juntos), trabalha como representante farmacêutico
e está noivo de uma moça linda e gentil. Dia desses, fomos ao cinema juntos:
ele com a noiva, eu com a Letícia.
Não consigo olhar para ele sem ver um pouco de você. Mas não
toco nesse assunto. Ele não gosta de falar de você. Ainda dói muito. E dói em
mim também. Então, a gente não fala. A gente só sente. E essa dor, reprimida,
censurada, fica como um buraco no meio do peito da gente. Um buraco que a gente
vive pulando para não cair nele. Da mesma forma que se pula um buraco no meio
da rua.

Para quem ficou aqui, Marcelo, a vida continua a mesma luta
diária. A cada dia, colocamos um tijolinho no muro, na construção da nossa
felicidade. Às vezes, vem um vento e derruba tudo. Então, a gente começa tudo
de novo, tijolo após tijolo.
Enquanto há vida, você sabe, há esperança.

Meu filho está uma graça! Você, que o viu tão pequenino, não
acreditaria no tamanho que ele tem agora. Em julho, faz 7 anos. É muito esperto
e peralta. Bonito como a Letícia e tagarela como eu. Ainda bem que não foi o
contrário, né? Senão, teríamos um menino feio e caladão. (risos)

Juntamente com a alegria de ver um filho crescer, mistura-se
a mágoa secreta de envelhecer. De ver o tempo passar. Ele não para, e vai nos
levando tantas coisas...
Leva nossa juventude, leva nossa inocência de antes, leva
nossas crenças, leva nossos doces sorrisos e leva amigos como você. Você não
sabe como é perder um amigo como você. Ou sabe?

Olho-me no espelho, pela manhã, e meu rosto está caído. Meus
cabelos ralos. Em meus braços, aquelas pintinhas vermelhas, características de
uma pele que vai envelhecendo. Minha barriga aparecendo. Meus olhos caídos, meus ombros caídos... nem
quero falar do resto! (risos)
Agora, uso óculos, tenho pressão alta, evito cafeína.
Não tenho mais a energia daqueles dias. Estou ficando velho,
amigo.
Aquele Robson, lentamente, vai dando lugar a outro.

Já são 5 anos. Mais um ano, serão 6.
E a vida segue aqui.
A cada ano, você se distancia mais.
Tenho novos bons amigos agora, mas para um amigo como
você... não há substituto.
Um amigo não substitui o outro, ele se soma aos que já
existiam antes.
A tua imagem permanece intacta, límpida.
E a nossa amizade, viva, muito viva.

Esta carta, meu amigo, cumpre dois importantes papéis: o
primeiro, de ser desabafo. O segundo, de ser homenagem.
Suporte meu desabafo, aceite minha homenagem e não se
importe com essas minhas lágrimas.

Aceite esta vigília, aceite esta luz amarela de abajur que
ilumina esta folha, que ilumina estas minhas linhas. Aceite este silêncio da
madrugada, enquanto todos os homens do mundo quedam adormecidos. Este doce silêncio
de criança que dorme.
O meu quarto, esta noite, é como um farol, um candeeiro, uma
centelha de luz na imensidão da noite escura, da névoa densa. É a prova de uma
consciência desperta.
Essa escuridão é o tempo passado, são esses 5 anos sem você.
A centelha, essa luz que resiste à treva densa do tempo, é a
nossa amizade, Marcelo, que nunca há de se apagar.


Robson Cassimiro
09/03/2012

*Este texto é dedicado ao querido e inesquecível amigo,
Marcelo Sabino Fernandes.

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